O Ser Necessário e o Deus Pessoal
Desde os primórdios da filosofia, a humanidade tem se debruçado sobre a questão fundamental da existência de Deus. Ao longo da história, diferentes tradições e sistemas de pensamento tentaram definir a natureza do divino, mas nenhum conceito se destaca tanto quanto o Deus revelado na Bíblia.
Diferente das concepções mitológicas ou das abstrações filosóficas, o Deus bíblico não é uma entidade limitada pelo tempo e pelo espaço. Ele não é um ser que emergiu do caos, nem um mero arquétipo construído pela necessidade humana de ordem. Ele se apresenta como o próprio fundamento da realidade, o Ser Necessário, aquele que existe por Si mesmo.
Ele é eterno, imutável, onipotente, onisciente e transcendente. E não necessita de súditos, não mendiga culto, não anseia por reconhecimento. Seu relacionamento com o homem não é um jogo de fragilidades emocionais divinas, é um chamado à realidade, um convite para que a criatura compreenda sua própria insuficiência e se reconcilie com a única Fonte da Vida.
Essa distinção não é um mero detalhe teológico, mas uma afirmação que redefine nossa compreensão sobre a origem, o propósito e o destino da existência.
O erro grosseiro dos críticos do teísmo é imaginar Deus como uma entidade carente, que exige servidão por mero capricho. A relação entre Criador e criatura não se dá por necessidade divina, mas por necessidade humana. Como o peixe precisa da água, o homem precisa de Deus, não para satisfazer um ego cósmico, mas porque fora Dele não há vida. Quem rejeita esse chamado não O fere, apenas se condena à ilusão de autossuficiência.
O estado atual do mundo não reflete sua condição original. A criação foi feita boa, íntegra, sem corrupção. A entrada do mal e do sofrimento não é um enigma metafísico insolúvel, mas a consequência lógica da ruptura entre o homem e o Criador. A dor e a morte não são meros acidentes, mas sinais de uma ordem danificada. O cristianismo não ignora a dureza da realidade, ao contrário, explica-a com uma precisão que nenhuma ideologia jamais alcançou. O sofrimento não é absurdo, mas parte de uma narrativa maior. Cristo ao aceitar a cruz, não apenas expôs o absurdo da injustiça, mas demonstrou que mesmo o sofrimento mais radical pode ter um propósito transcendente.
A questão do sofrimento "gratuito" só faz sentido para quem parte da premissa de um mundo sem telos, sem finalidade. Para o cristão, a dor nunca é um evento isolado. O que parece um escândalo à lógica cartesiana é, na verdade, a própria estrutura de um cosmos que ainda não foi restaurado. Tragédias naturais, doenças e predatismo não são caprichos divinos, mas reflexos de uma realidade transitória.
O problema fundamental dos críticos de Deus não está em suas perguntas, mas nas premissas equivocadas que os levam a elas. Aplicar uma lógica limitada, humana, para tentar definir como Deus deveria agir é um erro, pois parte da suposição equivocada de que nossa percepção finita pode estabelecer os critérios do que faz sentido para um Ser infinito. A criatura exigindo explicações do Criador é a inversão máxima da ordem das coisas. O Livro de Jó ilustra isso com maestria, quando Jó, em sua aflição, questiona a justiça divina, Deus lhe responde não com explicações filosóficas, mas com uma visão esmagadora da criação. Confrontado com a vastidão da realidade, Jó reconhece sua própria insignificância: "Falei do que não entendia, coisas que são maravilhosas demais para mim, e que eu não conhecia".
Os filósofos tentaram compreender Deus por meio da razão pura. Aristóteles concebeu um "Motor Imóvel", um princípio necessário para a ordem cósmica, mas preso à fria contemplação de si mesmo. O que o filósofo não soube, porque a razão sozinha não poderia alcançar, é que esse Ser Necessário não apenas sustenta todas as coisas, mas escolheu intervir nelas. O Deus bíblico não é um arquiteto distante, mas um Pai que desce ao nível de Sua criação. Ele não se contenta em ser reconhecido, Ele age, redime e transforma.
O grande erro dos materialistas e dos céticos não está em sua dúvida, mas na incapacidade de perceber que sua própria razão é um dom do mesmo Deus que negam. O homem ao tentar julgar Deus segundo seus próprios critérios, não percebe que só pode fazer isso porque sua mente, mesmo caída, ainda carrega um reflexo da Inteligência Suprema. A transcendência não é um luxo teológico, mas a única chave capaz de explicar tanto a ordem do universo quanto o mistério da consciência.
A questão não é se Deus existe, mas se o homem terá humildade suficiente para reconhecê-Lo. Deus permanece o que é, independentemente da aceitação humana. O homem, por outro lado, define seu destino pela resposta que dá a essa realidade. Entre a soberba da negação e a sabedoria da entrega, está todo o drama da existência humana.
José Rodolfo G. H. de Almeida é escritor e editor do site www.conectados.site
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The Necessary Being and the Personal God
Since the dawn of philosophy, humanity has been studying the fundamental question of the existence of God. Throughout history, different traditions and systems of thought have attempted to define the nature of the divine, but no concept stands out as much as the God revealed in the Bible.
Unlike mythological conceptions or philosophical abstractions, the biblical God is not an entity limited by time and space. He is not a being that emerged from chaos, nor a mere archetype constructed by the human need for order. He presents himself as the very foundation of reality, the Necessary Being, the one who exists by Himself.
He is eternal, immutable, omnipotent, omniscient and transcendent. And He does not need subjects, does not beg for worship, does not yearn for recognition. His relationship with man is not a game of divine emotional frailties, it is a call to reality, an invitation for the creature to understand his own insufficiency and reconcile himself with the only Source of Life. This distinction is not a mere theological detail, but a statement that redefines our understanding of the origin, purpose, and destiny of existence.
The gross error of the critics of theism is to imagine God as a needy entity, who demands servitude out of mere whim. The relationship between Creator and creature does not exist out of divine necessity, but out of human necessity. As the fish needs water, man needs God, not to satisfy a cosmic ego, but because outside of Him there is no life. Whoever rejects this call does not harm Him, but merely condemns himself to the illusion of self-sufficiency.
The current state of the world does not reflect its original condition. Creation was made good, whole, without corruption. The entry of evil and suffering is not an insoluble metaphysical enigma, but the logical consequence of the rupture between man and the Creator. Pain and death are not mere accidents, but signs of a broken order. Christianity does not ignore the harshness of reality; on the contrary, it explains it with a precision that no ideology has ever achieved. Suffering is not absurd, but part of a larger narrative. By accepting the cross, Christ not only exposed the absurdity of injustice, but demonstrated that even the most radical suffering can have a transcendent purpose.
The question of "gratuitous" suffering only makes sense to those who start from the premise of a world without telos, without purpose. For the Christian, pain is never an isolated event. What seems like a scandal to Cartesian logic is, in fact, the very structure of a cosmos that has not yet been restored. Natural tragedies, diseases and predation are not divine whims, but reflections of a transitory reality. If biology were utopian, man would be content with this world and forget that he was made for another.
The fundamental problem with God’s critics is not their questions, but the flawed premises that lead them to them. Applying limited, human logic to try to define how God should act is a mistake, because it starts from the mistaken assumption that our finite perception can establish the criteria for what makes sense to an infinite Being. The creature demanding explanations from the Creator is the ultimate inversion of the order of things. The Book of Job illustrates this masterfully: when Job, in his distress, questions divine justice, God responds not with philosophical explanations, but with an overwhelming vision of creation. Confronted with the vastness of reality, Job recognizes his own insignificance: “I have spoken of things I did not understand, things too wonderful for me, and I did not know them.”
The great error of materialists and skeptics is not their doubt, but their inability to perceive that their own reason is a gift from the same God they deny. When man tries to judge God according to his own criteria, he does not realize that he can only do so because his mind, even fallen, still carries a reflection of the Supreme Intelligence. Transcendence is not a theological luxury, but the only key capable of explaining both the order of the universe and the mystery of consciousness.
The question is not whether God exists, but whether man will have enough humility to recognize Him. God remains what He is, regardless of human acceptance. Man, on the other hand, defines his destiny by the response he gives to this reality. Between the pride of denial and the wisdom of surrender lies the entire drama of human existence.
José Rodolfo G. H. de Almeida is a writer and editor of the website www.conectados.site
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