O Elogio da Dúvida - Limites, Realidade e Conservadorismo
Há textos que pedem concordância imediata e outros que exigem rejeição automática. Ambos partem do mesmo pressuposto, que o leitor já sabe, de antemão, de que lado está. O que se perdeu nesse processo foi algo mais elementar do que o consenso ou o conflito, perdeu-se o hábito de acompanhar um raciocínio até o fim antes de decidir se ele é aceitável ou não. A leitura tornou-se um ato apressado. Não se lê para compreender, mas para confirmar suspeitas, reforçar identidades ou encontrar motivos para indignação. O texto deixa de ser um espaço de reflexão e passa a funcionar como um teste de alinhamento. Nessa circunstância, ideias não são examinadas, são aceitas ou rejeitadas conforme o efeito emocional que produzem nos primeiros parágrafos. Talvez por isso a simples exposição de um raciocínio contínuo provoque hoje reações desproporcionais. Não porque seja particularmente ousado, mas porque contraria um hábito mental difundido, o de substituir o juízo pela adesão automática. Quando alguém...